Frequentemente recebo no meu consultório pessoas se queixando de seus relacionamentos amorosos. A maioria é mulher, não por alguma questão de gênero, mas simplesmente porque os homens têm mais dificuldade de falar de seus problemas e consequentemente não procuram ajuda, apesar de sofrerem igualmente.

Mas independentemente do sexo, o problema é o mesmo, as minhas clientes o chamam de “dedo podre”, que é a “habilidade” ou “azar” persistente em escolher pessoas que as fazem infelizes.

Vamos falar aqui sobre algumas soluções para o tal “dedo podre”. Algumas, não todas, porque ele é um fenômeno mais complexo. Falaremos mais sobre as causas do dedo podre em próximos artigos.

A solução

Uma parte da solução do famoso “dedo podre” passa por saber diferenciar alguns detalhes importantes nas pessoas. Vamos abordar aqui alguns desses detalhes e a saída para não cair sempre nas mesmas armadilhas…

Refinar o nosso olhar e sensibilidade para esses detalhes é muito útil, permite saber mais rápido com o tipo de pessoa que estamos nos relacionando, antes que seja tarde demais, e você tenha caído no mesmo erro novamente.

Para fins didáticos, vamos dividir as pessoas agora em dos tipos, 1º) aquelas focadas nos outros e 2º) aquelas focadas em si mesmas. É muito raro encontrar alguém 100% focado no outro ou em si. A maioria de nós está em posições intermediárias. O equilíbrio nesse foco eu/outro é o ideal, e é também, infelizmente, raro de se encontrar.

As pessoas que são focadas nos outros destinam muito de sua atenção, energia, tempo, empenho e dedicação para satisfazer as necessidades, desejos e vontades do parceiro. Além disso, elas conseguem, com facilidade, abrir mão em prol dos outros (de seus objetivos, compromissos, pertences, de seu tempo, etc), e ficam felizes ao ver que seu sacrifício ou esforço resultou em alegria para o cônjuge. Em outras palavras, ficam felizes com a felicidade do parceiro.

As pessoas focadas em si mesmas, ao contrário, dedicam sua energia muito mais aos próprios interesses. Elas têm dificuldade de abrir mão pelo outro, tem dificuldade de fazer sacrifícios pelo cônjuge, e não tem tanta satisfação com a alegria do parceiro.

Culturalmente, somos levados a acreditar que as pessoas focadas no outro são mais “virtuosas” e que as focadas em si são “egoístas”. Contudo, não é assim que ocorre de fato, porque existem pessoas com foco no outro, que fazem sacrifícios grandes, buscando controle, reconhecimento, prêmios e coisas do tipo, o que é, em muitos casos, também uma atitude egoísta.

Em um relacionamento amoroso, existem muitas situações em que nós fazemos esforços pelo outro e ganhamos um benefício imediato e outras em que isso não acontece. Vamos falar de três situações agora, e em seguida quero que você responda a uma pergunta: uma pessoa focada em si se sentiria confortável em fazer/participar de qual das três situações a seguir?

3 situações comuns

1ª Situação: A garota chama seu namorado para encontrá-la sábado à noite. Vê-la trará benefícios imediatos para o rapaz: ver a garota, abraçá-la, conversar, fazer sexo, etc.

2ª Situação: A namorada convida seu namorado para encontrá-la no sábado à noite, só que a situação mudou um pouco de figura. Agora, a namorada acabou de se mudar para uma nova casa e o rapaz sabe que a casa estará toda bagunçada e que, consequentemente, ele terá que ajudar a arrumar a bagunça, provavelmente ajudar na instalação do chuveiro, tirar o vazamento da pia da cozinha e por aí vai. Nesse caso, ele não vai receber tanta atenção da parceira, mas ainda poderá vê-la, conversar com ela.

3ª Situação: A namorada teve que fazer uma viagem e o cachorrinho dela está sozinho em casa e alguém tem que passear com ele. O bichinho é muito sensível e carente.  Ela pede a ele para fazer isso por ela. O namorado não tem muita simpatia pelo cachorro nem pela atividade de passear com o animal.

Em qual das situações uma pessoa focada em si se sente mais à vontade?

Agora você já tem conhecimento suficiente para responder à pergunta: Em qual situação uma pessoa focada em si mesma se sentiria mais à vontade? Na primeira

terceira situação seria a mais difícil. Em geral, as pessoas mais focadas em si não conseguem fazer tarefas como a terceira situação. Porque não conseguem se engajar em atividades onde não terão benefícios imediatos, onde terão que fazer “sacrifícios” pelo outro.

Consequências disso no “dedo podre”

Geralmente, as pessoas que tem um desequilíbrio no foco, com foco muito forte no outro, em geral, escolhem ou são escolhidas por pessoas com foco em si.

Isso é uma das causas do dedo podre. Por que isso acontece? Vamos analisar a perspectiva de cada um: da perspectiva de quem tem o foco em si, ter um parceiro com foco no outro é muito bom porque:

1º) O parceiro não exige sacrifícios.

2º) O parceiro atende prontamente suas necessidades.

Da perspectiva de quem tem o foco no outro, ter um parceiro com foco em si é agradável porque:

1º) O parceiro focado em si necessita que sejam feitos sacrifícios por ele.

2º) O parceiro focado em si se torna um desafio para o outro, (que é uma armadilha), aumentando o seu comprometimento e dedicação (atitudes consideradas “virtuosas” para pessoas com foco no outro).

O 1º Passo

Uma forma de resolver isso? Primeiramente, tornar-se mais consciente desse processo em você, e em seguida aprender a pedir e demandar que as pessoas façam por você o mesmo que você faz por ela. O mesmo nível de dedicação, sacrifício empenho… e por aí vai.

Muitas pessoas tem vergonha de pedir coisas, como as da terceira situação para o parceiro, mas isso é importante, porque permite conhecer a pessoa, perceber se ela fica feliz em dispender seu tempo e energia para satisfazer as suas necessidades. Muitas pessoas não sabem ou não conseguem fazer pedidos como esse, e às vezes, isso impede de conhecer o parceiro.

Acredito que esse artigo vai te ajudar a ver seus relacionamentos com maior clareza. Mas para resolver esse problema, você terá que fazer mudanças na sua forma de agir. As pessoas que tem o foco eu/outro equilibrado não gostam de ter ao seu lado pessoas que não se cuidam e gostam só de fazer sacrifícios para os outros. Para ter melhores relacionamentos é importante buscar o equilíbrio no foco eu/outro.

Se empenhar voluntariamente nesse sentido é muito produtivo e você pode conseguir de fato mudar a sua vida. Sou contra a ideia de que todos devem fazer terapia. Psicologizar a todos não é um caminho, na minha opinião! Contudo, se o desequilíbrio nesse foco for um padrão de comportamento antigo seu, ou mesmo se estiver baseado em crenças mais profundas, então é provável que seja necessária a ajuda de um bom terapeuta. Caso sinta que esse é o seu caso, não deixe de entrar em contato. Hoje em dia questões como essa podem ser trabalhadas, via terapia presencial ou online. Se você tem o foco no outro provavelmente terá dificuldades para entrar em contato. Se for esse o seu caso, talvez seja a hora de agir diferente e começar a cuidar de você. Não nascemos com “dedo podre” mas podemos insistir por anos em escolhas ruins…O primeiro passo…Começar a cuidar de você!

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